
Hoje eu sonhei que havia dado um passeio. Andei pelas ruas.
Entrei numa farmácia, e as pessoas me olhavam.
Como se tivesse algo de errado com a minha roupa.
Andei, e as pessoas que passavam tinham o olhar triste.
Algumas olhavam pro chão, como se procurassem algo.
Algumas nem sequer piscavam. Não olhavam pra mim.
Como se eu não existisse. Andei, e vi vários cachorros
brincando. As pessoas passavam por entre eles. Ás vezes
reclamavam da falta de espaço na calçada. Eu vi que o vento
balançava as árvores com força. As folhas caíam aos montes.
E vi que elas enfeitavam as calçadas. Hoje reparei que as
montanhas estavam lindas. Passei a observá-las. Elas não
me viam, mas sabiam que eu as admirava. Algumas pessoas
pisavam numa poça d´água, e resmungavam. Um carro fez
um moço desequilibrar-se de uma bicicleta. Eles trocaram
insultos e foram cada um pra seu caminho, continuar suas vidas.
Uma criança chorava no colo da mãe, devia estar com fome, já era
hora do almoço. As pessoas na feira vendiam frutas, objetos inúteis,
discos, bolos, roupas... passavam umas pelas outras como se estivessem
num jogo de futebol americano. Algumas mulheres estavam
muito bem vestidas. Uma usava um vestido estampado azul,
muito bonito. Algumas estavam quase nuas. Um senhor de idade
passou por mim, e me olhou fundo nos olhos. Como se tivesse
algo a me dizer. As pessoas na feira me cumprimentavam,
como se eu fosse famoso. eu não conseguia sorrir,
nem achar graça de nada à minha volta. Continuei andando.
Entrei numa rua , cheia de árvores lindas. As folhas
que caíam eram coloridas: amarelas, vermelhas. As pessoas
atiravam coisas em mim, como se eu fosse ruim.
A rua logo ficou deserta e não ouvia ruído nenhum.
Nem os pássaros se moviam. Era como se eu estivesse só.
sentei na calçada, e por muito tempo não ouvi nem um
só barulho. Apenas o vento se mostrava presente.
E o vento não parecia gostar de mim. Ele rosnava
como um cão. E dizia coisas pra me magoar.
Reparei que não tinha pra onde ir. E fiquei ali, sentado,
por muito tempo. Levantei, e continuei andando.
E vi pessoas da minha família. Algumas estavam rindo.
Algumas não tinham expressão alguma no rosto.
Nenhum deles m olhou nos olhos. Mais uma vez,
aquela sensação de que eu não existia.
Eu me sentei novamente numa calçada.
Uma música começou a tocar. Ela me fez bem.
Eu adormeci com um meio-sorriso no rosto.
Eu me perguntava: “pra quê?”...